A Matriz: um grande holograma cósmico
Quando olhamos a “vida” (nossa abundância material e espiritual, relacionamentos e carreira, nossos seres mais queridos e nossas maiores conquistas, ao lado de nossos medos e da escassez de todas essas coisas), podemos estar contemplando também o reflexo de nossas crenças mais verdadeiras — e às vezes mais inconscientes. Essas crenças nos cercam porque foram manifestadas pela misteriosa essência da Matriz e, por esse motivo, a própria consciência deve desempenhar um papel-chave na existência do universo.
Uma das maiores controvérsias
Por mais forçada que essa ideia possa parecer a muitas pessoas, trata-se do ponto crucial de uma das maiores controvérsias debatidas pelas mentes mais brilhantes da história recente. As notas autobiográficas de Albert Einstein, por exemplo, nos contam que ele era um dos que acreditavam que somos observadores essencialmente passivos vivendo em um universo preexistente, sobre o qual exercemos uma influência muito pequena:
“Lá fora encontra-se esse imenso universo que existe independentemente dos seres humanos e nos confronta como grande e eterna charada parcialmente acessível, pelo menos, às nossas inspeções e pensamentos.”
The Expanded Quotable Einstein, Alice Calaprice, org. (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2000): p. 220.
Contrastando com a perspectiva de Einstein, que ainda é sustentada por muitos cientistas hoje, John Wheeler, um físico de Princeton e colega de Einstein, oferece uma explicação radicalmente diferente de nosso papel na criação.
Wheeler anuncia em termos enfáticos, claros e vividos, que:
“Há muito tempo acreditamos que lã fora existe um universo e que aqui se encontra o homem, o observador, protegido com segurança contra o universo por uma placa de quinze centímetros de vidro laminado”. Ao observar os experimentos do século XX que nos mostravam como o ato de simplesmente olhar alguma coisa mudava essa coisa, Wheeler pondera: “Agora aprendemos com o mundo quântico que, até para observar um objeto tão minúsculo como um elétron, precisamos estilhaçar essa placa de vidro: temos que ir ao âmago. […] Nosso antigo termo observador deve ser simplesmente abolido dos livros; deveremos substituí-lo por participante, uma nova palavra.”
John Wheeler, conforme citado por E David Peat in Synchronicity: The Bridge Between Matter and Mind (Nova York: Bantam Books, 1987): p. 4.
O pensamento de que, durante o breve período de nossa existência, estamos participando da criação, em vez de estarmos simplesmente passando pelo universo, exige nova percepção do que é o cosmos e de como ele funciona.
A Totalidade e a Ordem Implicada
A base de uma concepção do mundo tão radical fundamentou a série de livros e artigos de David Bohm, outro físico de Princeton e colega de Einstein. Bohm nos deixou duas teorias pioneiras antes de seu falecimento em 1992, oferecendo-nos duas visões muito diferentes do universo (visões praticamente holísticas, de certo modo) e do papel que nele desempenhamos.
A primeira foi uma interpretação da física quântica que estabeleceu o cenário para a reunião de Bohm com Einstein, início da amizade entre ambos. Foi essa a teoria que abriu a porta para o que Bohm chamou de “operação criativa de fundamentação […] dos níveis de realidade”.[1]
Em outras palavras, ele acreditava que existem planos de criação mais profundos e elevados fundamentando o modelo dos acontecimentos no nosso mundo. Nosso mundo físico se origina desses níveis mais sutis da realidade.
Sua segunda teoria explicava o universo como um sistema único e unificado da natureza, conectado de maneiras nem sempre muito óbvias. Durante seus primeiros trabalhos no Lawrence Radiation Laboratory (atualmente Lawrence Livermore National Laboratory) da University of Califórnia, Bohm teve a oportunidade de observar pequenas partículas de átomos em um estado gasoso especial conhecido como estado de plasma.
Ele descobriu que as partículas nesse estado de plasma não se comportam como as unidades que usualmente consideramos autônomas, comportam-se mais como se estivessem interligadas entre si, como se fossem parte de uma existência maior.
Esses experimentos lançaram a fundação para o trabalho pioneiro pelo qual Bohm provavelmente é mais conhecido, seu livro de 1980, Wholeness and the Implicate Order (A Totalidade e a Ordem Implicada).[2]
Nessa obra modificadora de paradigmas, Bohm sugere que, se pudéssemos ver o universo inteiro de um ponto de vista mais elevado, todos os objetos do nosso mundo apareceriam como projeções de coisas que estariam acontecendo em outro ambiente fora de nosso campo de observação. Ele vislumbrou o que podemos e o que não podemos ver como expressões de um universo mais amplo, de uma ordem universal maior.
Para distinguir entre as duas situações, ele chamou esses dois reinos de “implicado” e “explicado”. Tudo o que podemos ver e tocar e que aparece individualizado no nosso mundo (tais como as rochas, os oceanos, as florestas, os animais e as pessoas) são exemplos da ordem explicada da criação.
Entretanto, por mais que essas coisas aparentem ser diferentes umas das outras, Bohm sugere que elas se encontram ligadas a uma realidade mais profunda, de uma maneira que simplesmente estamos impossibilitados de ver do lugar que ocupamos na criação. Ele viu todas as coisas que estão aparentemente separadas de nós como pertencentes a uma totalidade maior, que ele designou de ordem implicada.
A diferença entre o implicado e o explicado
Para descrever a diferença entre o implicado e o explicado, Bohm fez uma comparação com o que ocorre em um curso de água. Usando a metáfora do fluxo da água na mesma corrente líquida, ele descreveu a ilusão da individualidade das coisas da seguinte maneira:
“No curso de água vemos uma multitude de vórtices, ondulações, agitações, ondas, salpicos, etc., evidentemente sem que possam existir como unidades autônomas”.
Francis Harold Cook, Hua-yen Buddhism, p. 2
Ainda que as perturbações da superfície da água possam nos parecer individualizadas, Bohm as viu como intimamente ligadas e profundamente conectadas entre si.
“Tais subsistências transitórias, embora dotadas de formas abstratas, implicam apenas em uma independência relativa, não têm existência totalmente independente”.
Em outras palavras, todas são parte da mesma água.
Bohm fez uso de tais exemplos para descrever sua percepção de universo e de tudo o que ele contém, incluindo-nos também, o que efetivamente pode ser parte de um grande padrão cósmico no qual todas as partes são igualmente compartilhadas entre si. Englobando tal visão unificada da natureza, ele declarou simplesmente que:
“O melhor nome para essa nova introvisão talvez seja: Totalidade Indivisa em Movimento Fluente”.
Na década de 1970, Bohm ofereceu uma metáfora ainda mais clara para descrever como o universo pode ser pensado como um todo disperso, ainda que indivisível.
Refletindo sobre a natureza interrelacionada da criação, ele se convenceu mais ainda de que o universo funciona como um grande holograma cósmico. Em um holograma, cada parte de qualquer objeto representado contém a totalidade do objeto, com a única diferença de estar em menor escala.
De acordo com a perspectiva de Bohm, o que hoje percebemos como nosso mundo é a projeção de algo ainda mais real e que se passa em um nível mais profundo do processo criativo. O original é o que se encontra no nível mais profundo — o do universo não-manifestado (implicado).
Nessa visão do “como em cima, assim embaixo” e “como dentro, assim fora”, os padrões encontram-se contido no interior dos padrões, completos dentro e fora de si mesmos, diferindo apenas quanto à escala.
A simplicidade elegante do corpo humano nos oferece um belo exemplo de holograma, já do nosso conhecimento. O DNA de qualquer parte do corpo contém nosso código genético — a totalidade do padrão do DNA — para todo o restante do corpo, independentemente da proveniência do código. Seja uma amostra do cabelo, da unha ou do sangue, o padrão genético que nos faz ser quem somos estará sempre contido no código e sempre será o mesmo.
Assim como o universo muda constantemente do implicado para o explicado, o fluxo do não visto para o visto é o que constrói a dinâmica da criação. É essa natureza constantemente mutável da criação que John Wheeler tinha em mente quando descreveu o universo como “participativo”, isto é: inacabado e continuamente respondendo à consciência.
Um campo de energia conectando toda a criação
De uma perspectiva quântica, tudo, desde os átomos da matéria, a folha do gramado, até nosso corpo, o planeta e o que se encontra além, tudo isso pode ser pensado como uma “perturbação” no tecido liso desse cobertor espaço-temporal.
Talvez não seja coincidência o fato de as antigas tradições espirituais se assemelharem tanto ao descreverem o fenômeno da existência. As escrituras védicas, por exemplo, falam de um campo unificado de “pura consciência”, que banha e permeia toda a criação: Akasha.
Nesses escritos, nossas experiências do pensar, sentir, ter emoções e alimentar crenças e todo o discernimento criado por tais experiências, são considerados como “perturbações”, interrupções em um campo que, não fosse por isso, teria suavidade e imobilidade.
De maneira semelhante, o poema do século VI Hsin-Hsin Ming (que se traduz como Versos sobre a Fé-Mente) descreve as propriedades de uma essência que é projeto de toda criação, chamada Tao, está basicamente além da descrição, exatamente como vemos nas escrituras védicas. Isso é tudo, o receptáculo de toda experiência, assim como a experiência propriamente dita. O Tao é descrito como perfeito, “como um vasto espaço, onde nada falta e nada está em excesso”.[3]
Em muitos aspectos, nossa experiência com a Matriz pode ser comparada ao software que faz nosso computador funcionar. Nos dois casos, as instruções devem usar uma linguagem que o sistema compreenda. Para o computador, trata-se de uma codificação numérica de 0 e 1. Para a consciência, outro tipo de linguagem é necessária, uma que não faça uso de números, nem de alfabetos, nem mesmo de palavras. A linguagem da consciência parece ser a experiência universal da emoção.
Assim como toda a vida provém de quatro bases químicas que criam nosso DNA, o universo aparentemente se fundamenta em quatro características que fazem tudo funcionar da maneira que funcionam.
1. Existe um campo de energia conectando toda a criação.
2. Esse campo desempenha o papel de receptáculo, ponte e espelho para nossas crenças íntimas.
3. O campo está em toda a parte e é holográfico. As partes estão ligadas entre si e cada uma espelha o todo em escala menor.
4. Nossa comunicação com o campo se faz pela linguagem da emoção.
Está ao nosso alcance reconhecer e aplicar essas realidades, que são determinantes de tudo, da restauração de nossa saúde ao sucesso em nossas carreiras.
No final das contas, nossa sobrevivência como espécie pode estar diretamente ligada à nossa capacidade e desejo de compartilhar práticas afirmativas de vida provenientes de uma visão do mundo quântico unificado.
🔍 Referências:
[1] David Bohm and E David Peat, Science, Order, and Creativity (Nova York: Bantam Books, 1987): p. 88
[2] David Bohm, Wholeness and the Implicate Order (Londres: Routledge & Kegan Paul, 1980): p. 62.
[3] O antigo Hsin-Hsin Ming (Versos sobre a Fé na Mente) é atribuído a Chien Chih Seng-ts’an, terceiro patriarca Zen do século VI. Essa citação específica vem da tradução inglesa de Richard B. Clarke e é ilustrado por Gyoskusei Jikihara, Hsin-Hsin Ming: Seng-ts’an Third Zen Patriarch (Buffalo, NY: White Pine Press, 2001)



