Nossa consciência pode sobreviver à morte física do nosso corpo?
Se nós devemos projetar luz sobre a perene questão da sobrevivência da consciência, precisamos nos aventurar além dos métodos de observação das ciências naturais.
Observar o cérebro humano em nada nos ajudará, pois se a consciência continuar a existir depois que a função cerebral cessar, ela não estará mais associada com o cérebro. É mais importante examinar as evidências fornecidas pelos casos em que a consciência não está mais diretamente ligada ao cérebro.
É o que ocorre, por exemplo, nas experiências de quase morte (EQMs), nas experiências fora do corpo (EFCs), nas experiências de vidas passadas, em algumas variedades de experiências místicas e religiosas e, talvez as mais significativas de todas, nas experiências de comunicação após a morte (CAMs).
Consciência além do cérebro
Até recentemente, os cientistas não conseguiam lidar com esses tipos de experiências “paranormais”; elas não se encaixavam no esquema materialista do pensamento científico. Mas o nosso universo não é um universo do tipo materialista, e nele a consciência não é produzida pela matéria, e também não é limitada pela matéria.
Temos evidências clínicas de que a consciência pode persistir na total ausência de atividade cerebral.
Experiências de quase-morte
O cardiologista Pim van Lommel estudou experiências de quase-morte relatadas por sobreviventes de parada cardíaca em dez hospitais holandeses.
Ele conduziu entrevistas padronizadas com pacientes que já haviam se recuperado o suficiente e que foram ressuscitados poucos dias antes, e lhes perguntou se conseguiam se lembrar do período em que estavam inconscientes, e do que eles se lembravam. Ele codificou as experiências relatadas pelos pacientes de acordo com um índice ponderado.
Van Lommel descobriu que 282 dos 344 pacientes não tinham nenhuma lembrança do período da parada cardíaca. Mas 62 relataram alguma lembrança do que aconteceu durante o tempo em que estiveram clinicamente mortos; desses, 41 tiveram uma profunda experiência de quase-morte.
Um estudo realizado por Bruce Greyson, nos Estados Unidos, envolveu 116 sobreviventes de parada cardíaca. Dezoito pacientes relataram lembranças do período da parada cardíaca; desses, sete relataram uma experiência superficial e onze tiveram uma EQM profunda.
Greyson escreveu:
“A ocorrência paradoxal de percepção e processos de pensamento lógico lúcidos e intensificados durante um período de perfusão cerebral enfraquecida levanta desconcertantes questões para o nosso atual entendimento da consciência e de sua relação com a função cerebral. Um sensório claro e complexos processos de percepção durante um período de morte clínica aparente desafiam o conceito de que a consciência está localizada exclusivamente no cérebro.”
Os pesquisadores britânicos Sam Parnia e Peter Fenwick concordaram. Os dados sugerem, escreveram eles, que as experiências de quase-morte ocorrem durante a inconsciência. Essa é uma conclusão surpreendente, acrescentaram, pois quando a disfuncionalidade do cérebro é tal que o paciente está em coma profundo, é preciso que as estruturas cerebrais, que sustentam a experiência subjetiva e a memória, estejam seriamente danificadas.
Experiências complexas não deveriam surgir, nem deveriam ser retidas pela memória.
Van Lommel concluiu:
“Nossa consciência desperta é apenas uma parte da totalidade da nossa consciência indivisa. Há também uma consciência extensa ou intensificada que se fundamenta em campos de informação indestrutíveis e em constante evolução, e onde todo o conhecimento, sabedoria e amor incondicional estão presentes e disponíveis.”
A consciência, pelo que parece, pode persistir na ausência de função cerebral. Será que isso significaria que ela pode reaparecer no corpo e no cérebro de outra pessoa?
Reencarnação
Os fenômenos que sugerem reencarnação consistem em impressões e idéias relatadas por pessoas a respeito de locais, indivíduos e eventos com os quais eles não tiveram contato e nem poderiam ter tido contato na vida atual.
Esses fenômenos aparecem rotineiramente na experiência de psicoterapeutas que praticam análise de regressão.
Nesse processo terapêutico, os terapeutas colocam seus pacientes num estado levemente alterado — a hipnose não é necessária, uma vez que exercícios de respiração, movimentos rápidos dos olhos ou simples sugestões são normalmente suficientes — e fazem com que remontem de suas experiências atuais para experiências de seu passado.
Eles podem, com freqüência, levá-los de volta ao início de infância, à sua fase de bebê e ao nascimento físico. Vêm igualmente à tona experiências que parecem corresponder ao período da gestação no útero.
Com interesse, e, de início, muito inesperadamente, os terapeutas descobriram que eles podiam levar os seus pacientes até além do útero e do nascimento físico.
Depois de um intervalo de escuridão e quietude aparentes, outras experiências aparecem. São experiências de outros lugares e de outras épocas. No entanto, os pacientes não somente as relatam como a experiência de um livro que leram ou de um filme que viram, mas, efetivamente, eles as revivem.
Como os registros de Stanislav Grof comprovam, eles se tornaram a pessoa que vivenciaram, até mesmo na inflexão da voz, no idioma (que o paciente pode nunca ter chegado a conhecer em sua vida atual), e, se a experiência se refere à primeira infância, os reflexos musculares involuntários que caracterizam as crianças pequenas Ian Stevenson, da Universidade de Virgínia, investigou as experiências de vidas passadas relatadas por crianças.
Durante mais de três décadas, Stevenson entrevistou milhares de crianças, tanto no Ocidente como no Oriente. Ele descobriu que, entre a idade de dois ou três anos, quando elas começam a verbalizar suas impressões, e a idade de cinco ou seis anos, muitas crianças relatam identificação com pessoas que elas não viram, sobre as quais não ouviram falar, nem encontraram em suas jovens vidas.
Stevenson constatou que alguns desses relatos descreviam experiências de pessoas que já viveram antes, e cujas mortes combinavam com as impressões relatadas pela criança.
Às vezes, a criança trazia uma marca de nascença associada com a morte da pessoa com quem ela se identificara, tal como um sinal de ferimento ou uma mancha na parte do corpo onde uma bala fatal penetrara, ou defeitos físicos na mão ou no pé que o morto perdera ou ferira.
Uma criança na Índia, chamada Parmod, relatou em detalhes uma vida anterior num vilarejo vizinho e conseguiu identificar pessoas e lugares lá existentes com grande precisão e detalhes notáveis.
A história de Parmod não é única. Há uma ampla variedade de evidências para experiências de vidas passadas, mas essas evidências não garantem uma interpretação correta.
Pessoas com inclinação espiritual tendem a supor que essas experiências provêm de uma vida anterior, mas isso é apenas uma interpretação.
“A interpretação mais consistente com o que conhecemos do universo in-formado é que o nosso cérebro sintoniza o registro holográfico de outra pessoa no vácuo. ‘Experiências de vidas passadas’ significam recuperação de informação vinda do campo, em vez de ser a encarnação do espírito ou alma de uma pessoa morta.”
Ervin Laszlo – A ciência e o Campo Akáshico
Se tudo o que experimentamos ingressa no campo, nós temos uma explicação racionalmente convincente para experiências que parecem provir de vidas passadas. Mas há uma outra variedade de experiência anômala que também clama por uma explicação: é a experiência de se comunicar com uma pessoa morta recentemente.
Comunicação com os mortos
Não estamos lidando aqui com a situação de reviver a experiência de outra pessoa como se fosse nossa, mas com a de se encontrar com uma pessoa depois que ela morreu.
O morto não aparece para nós como um conjunto de experiências que poderiam ter origem na nossa própria existência passada, mas como outra pessoa que, num certo sentido, ainda está viva, pois pode se comunicar conosco.
Mais uma vez, devemos passar em revista as evidências pertinentes. Nas experiências de quase-morte, nas experiências fora do corpo, nas experiências de vidas passadas e em várias experiências místicas e religiosas, as pessoas parecem perceber coisas que não foram transmitidas pelos seus olhos, ouvidos ou outros sentidos corporais.
Nas EQMs, o cérebro pode estar clinicamente morto, com o EEG em “linha mortal”, e, no entanto, as pessoas podem ter experiências nítidas e vívidas que, quando elas retornam dos portais da morte, elas podem lembrar em detalhes.
Nas EFCs, as pessoas podem “ver” coisas a partir de um ponto do espaço afastado da posição do seu cérebro e do seu corpo, enquanto no arrebatamento místico e religioso os indivíduos experimentam a sensação de se unir com alguma coisa ou alguém maior que eles mesmos, e talvez maior que este mundo natural ou superior a ele.
Embora, em algumas dessas experiências, a consciência dos indivíduos esteja separada do cérebro físico, suas experiências são vívidas e realistas. Aqueles que passam por elas raramente duvidam que elas sejam reais.
Mas a comunicação com pessoas que estão mortas é outra variedade de experiência; ela não implica a encarnação do espírito ou alma de uma pessoa no corpo de outra, mas a persistência do seu espírito ou alma independentemente do corpo. Se isso for verdade, estaria indicando alguma forma de imortalidade.
Muitas pessoas parecem vivenciar CAMs, experiências de instâncias de comunicação após a morte. O pesquisador de EQMs Raymond Moody coletou uma ampla variedade de “encontros visionários com entes queridos que já partiram”.
As CAMs freqüentemente ocorrem de maneira espontânea, mas também podem ser induzidas.
Allan Botkin, um psicoterapeuta idôneo, diretor do Center for Grief and Traumatic Loss, em Libertyville, Illinois, e colaboradores declaram terem sido bem-sucedidos em induzirem a comunicação após a morte em cerca de três mil pacientes.
As CAMs podem ser induzidas em cerca de 98% das pessoas que as tentam. Em geral, a experiência acontece rapidamente, quase sempre numa única sessão. Ela não é limitada nem alterada pela aflição do sujeito nem pelo relacionamento que ele tinha com o falecido. Ela também não depende daquilo que os sujeitos que fizeram a experiência acreditavam antes de passarem por ela, sejam eles profundamente religiosos, agnósticos ou ateus convictos.
As CAMs também podem ocorrer na ausência de um relacionamento pessoal com o morto — por exemplo, em veteranos de guerra que sentem aflição por um soldado inimigo anônimo que eles mataram. E elas podem ocorrer sem a orientação de um psicoterapeuta.
Na verdade, como o Dr. Botkin relata, guiar o indivíduo que vivencia a experiência inibe o desenrolar da experiência; é suficiente induzir o estado mental necessário para que a experiência aconteça. Esse estado é um estado ligeiramente alterado de consciência, obtido por meio de uma série de movimentos rápidos dos olhos. Conhecido como “dessensibilização e reprocessamento sensorial”, ele produz um estado receptivo no qual as pessoas estão abertas às impressões que aparecem em sua consciência.
Tipicamente, a experiência de comunicação após a morte é clara, vívida e totalmente convincente. Os terapeutas ouvem seus pacientes descreverem a comunicação com a pessoa morta, ouvindo-os insistir que suas reconexões são reais, e observam repetidamente como seus pacientes mudam quase instantaneamente de um estado de aflição emocional para um estado de alívio e entusiasmo.
Nas CAMs, as pessoas têm a experiência de que o morto pelo qual elas se afligem está feliz e bem, e com freqüência mais jovem do que na época em que morreu.
Uma “reconexão” com o morto alivia e geralmente resolve a aflição que pesa sobre a mente de quem tem essa experiência. Claramente, as CAMs têm um notável valor terapêutico. Mas o que elas significam? Seriam ilusões induzidas pela aflição?
Botkin afirma que elas não são; elas não se encaixam em qualquer categoria conhecida de alucinações. Portanto, elas são reais.
Mas será que os sujeitos realmente encontram o morto por quem estão sofrendo? Isso sugeriria que ele ainda existe de alguma maneira, talvez numa outra dimensão da realidade. Isso seria a verdadeira imortalidade: a sobrevivência da pessoa — a consciência, espírito ou alma dessa pessoa — depois da morte física do seu corpo.
Uma última reflexão
Ainda há muitas coisas que não entendemos a respeito das extensões mais remotas da consciência humana, mas uma coisa se salienta: a consciência não desaparece quando as funções do cérebro e do corpo terminam.
Ela persiste, pode ser chamada de volta e, pelo menos durante algum tempo, nós podemos nos comunicar com ela.
Pelo que parece, o holograma que codifica as experiências de toda uma vida mantém um nível de integração que lhe permite uma forma de existência autônoma mesmo quando ele não está mais associado com o cérebro e com o corpo. Ele é capaz de receber sinais (inputs) vindos do mundo manifesto e de responder a esses sinais.
Nessa interpretação, a intuição perene de uma alma imortal não é mais inconsistente com o que estamos agora começando a compreender, graças à ciência, a respeito da verdadeira natureza da realidade.
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